quarta-feira, 4 de julho de 2012

Uma noite

Ela me busca justamente quando estou absorta em pensamentos dos mais estranhos. Leva-me para longe, um lugar da noite onde ninguém pode nos encontrar. Diz todas as palavras que quero ouvir, e todos os sonhos que eu gostaria de ter. Vem, inicialmente calorosa, abraçando-me e envolvendo-me em seus braços, beijando-me com seu hálito doce. Faz com que eu acredite não ser possível viver sem sua companhia. Então não penso em mais nada. Entrego-me ao seu encanto e esqueço de onde vim e para onde vou. De certa forma, isso me parece cômodo e necessário. Não luto. Fico ali, imóvel na cama ainda fria, esperando que o tudo aconteça.
No escuro, a nudez parece ser mais cruel. E sublime.Brutalmente, minha adorada amiga transforma meu corpo num pedaço do mundo, como a terra ou a água. Sou absorvida na mais intensa demonstração de torpor que posso sentir. Com o sol quase nascendo, e minha cabeça latejando incondicionalmente, ela me dá o último beijo e vai embora vento a fora. Não diz quando vai voltar, mas a certeza de que ela voltará permanece. O quarto está com um cheiro forte de perfume, sentimentos e suor. Aquele cheiro todo cheio de mim.
Ah... Conviver com a presença da dor é difícil. Não há como amá-la ou odiá-la. Só é possível suportá-la. E eu suporto todas as vezes em que ela me visita. Noite após noite, deixo que ela entre em meu quarto e me invada com sua promessa de que vai embora depois de possuir o que quer. A cada lágrima, aguardo silenciosamente o amanhecer.

sábado, 21 de abril de 2012

E o pulso ainda pulsa

As semanas têm passado como furacões, deixando os estragos e as terras em mim deslizadas. Estou perdida, sensível, esgotada e cansada. Sinto vontade de dormir para sempre, sem sonhar ou ter pesadelo. Acho que a palavra certa é morrer mesmo. Deitar numa dessas noites quentes e não acordar jamais. Deixar que meus pulsos parem de pulsar e apontar que ainda estou viva. E eu ainda estou viva. Respirando, andando, chorando, teimando, desistindo, caindo. Fazendo tudo certo e errado ao mesmo tempo. Lutando e perdendo em todas as batalhas dessa coisa esquisita chamada viver. Ai, que coragem eu queria ter para não viver mais. Até para morrer eu sou covarde. Que bicho mais ruim. Que agonia! Que raiva!
Esqueço e lembro que preciso me manter aqui. Por uma fatalidade, entre outras fatalidades, algumas poucas pessoas ainda gostam de mim. Ainda. Sou covarde também para pensar em dar um tiro em todas essas pessoas que nutrem esse apreço que me mantém com os pés no chão. Por que vocês sentem algo tão bom por uma pessoa tão estúpida? Não consigo formular nenhuma hipótese. Quer dizer, talvez tenha uma, mas é ridícula. Deve ser essa coisa chamada esperança. A gente ao meu redor deve pensar que tenho chance de sair dessa, ou que um dia vou acordar e ver que era neura minha. Anuncio, porém, que não tenho mais jeito. Já sou um vaso quebrado. Sem solução. Sem alternativa. Vão embora, por favor. É bem menos doloroso e funesto sem seus olhares cheios de sentimento. Minha alma já está suficientemente destroçada.
"E o pulso ainda pulsa". Isso, ele pulsa. E eu ainda nado contra a maré. Ainda quero correr na direção contrária do mundo. Enquanto as pessoas normais querem viver, se apaixonar, ter filhos, trabalhar, eu quero apenas me trancar no quarto sem ter ninguém para me abraçar. Não quero e nem mereço abraços. Na atual situação em que me encontro, tenho dúvidas se mereço até um tapa na cara.
Tem sido uma boa terapia escrever, apesar de não ter postado quase nada no blog. A sensação de angústia passou um pouco, mas confesso a vocês que ainda é muito difícil acordar dia após dia com uma vontade horrível de chorar. Obrigada a todos os comentários lindos de vocês que lêem o blog! Vocês fizeram com que eu tivesse vontade de continuar!

sábado, 17 de março de 2012

Desabafo de quem escreve

Ao escrever, tento captar todos os tipos de emoções que podemos sentir e mostrar. Procuro tentar entender com exatidão o porquê de sermos tão complexos. Dedico parte do meu tempo até para tentar achar respostas às minhas próprias ações nesse mar de palavras que podem me descrever. Algumas coisas, no entanto, parecem escapar rápidas demais pra minha mão no papel. Então fico ali, com o passar dos minutos, pensando no motivo das minhas indagações pessoais, da minha dor, dos risos mais altos. Sinto-me egocêntrica ao usar meu próprio corpo como objeto de estudo, mas preciso infinitamente entender o que estou fazendo aqui nesse mundo. No papel velho, escrevo, escrevo, escrevo e escrevo. E digo absolutamente nada.
Chego a conclusões precipitadas. Diminuo-me a medida que as horas vão passando. Sou inútil sem sequer notar que sirvo, sim, a alguém. Sou necessária, assim como água, mesmo com todas as minhas indagações, dores e risos estridentes em momentos não propícios. Acho que nenhum de nós percebe o quanto a gente faz alguém, quem quer que seja, feliz. Ficamos muito preocupados tentando entender algumas coisas que não precisam ser entendidas. Não percebemos coisas que precisam ser percebidas. No exato instante, noto que esqueci de captar pequenos elementos que poderiam fazer parte de uma grande narração de emoções sucessivas em um texto amador. Noto que nunca reparei em pequenos gestos da vida, como um toque suave, um sorrisinho tímido e umas mãos trêmulas no meu corpo. São diminutas descobertas que acabo de saborear, e as amo!
Agora escrevo sobre um sentimento mais profundo que o amor, aliás. Escrevo sobre uma sensação muito agradável de ter alguém com quem compartilhar tudo o que você pensa e sente. Alguém pra completar suas palavras, e pra abrir os braços quando você quiser um abraço apertado e quente. Alguém para oferecer os lábios e o cheiro como consolo, ou apenas a presença contínua. Não preciso mais escrever para mim mesma. Agora posso (tentar) expressar em palavras algo sobre alguém para ter perto de si sem esperar nada em troca. Entretanto, sei que como escritora amadora não consigo passar para o papel um sentimento tão silenciosamente magnífico.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A menina que não sabia nadar

Amarrado a cada membro
Pelas minhas algemas de medo
Selado com mentiras pelas tantas lágrimas
Perdido por dentro, perseguindo o fim
Eu luto pela chance de ser enganado de novo


(Lies - Evanescence)
A água fria faz o favor de mandar mensagens, através do meu sistema nervoso, para informar a mim mesma que estou viva. Afundo minhas pernas, minha cintura, peito, braços e cabeça numa piscina suja de desilusões. O som se propaga com dificuldade dentro d'água, mas consigo ouvir os gritos sufocados e as vozes me dizendo o que eu devo fazer, vestir e falar. Ouço um choro e só depois percebo que é o meu. Ele está ali, solitário no fundo do oceano feito da minha alma. Meus braços e pernas querem se mover com brutalidade num mar que agora não mais me abraça; agora me mata lentamente enquanto vejo minhas esperanças se esvaindo nas profundezas da humanidade.Quero sair daqui. Quero correr e beijar o restante do mundo que vive bem, que não conta moedas todos os dias, que não engole as palavras estridentes que saem no momento de terror.
Afogo-me, na esperança de que tudo vai passar assim que meus pulmões se encherem de água. Mas só sinto dor, e ele só se enche de maldade, cheiro de esgoto, vingança e amargura. Rio numa risada gelada, e encho-me de todo o vazio humano, de toda a podridão de emoções superficiais sentidas por todos nós. Vivemos menos a cada dia que passa, e mesmo assim pisamos no calo uns dos outros, cuspimos os defeitos uns dos outros. Tratamos mal nossos semelhantes. Tratamos mal aqueles que amamos. Somos o espelho daquilo que mais odiamos.
Então, em meio ao espasmo e ao ganido de dor, abro meus olhos. Cuspo um sangue com um cheiro ácido, e finalmente constato que não sei nadar. Na verdade, nunca nem aprendi. Apenas tentei provar a mim mesma que poderia ser capaz de viver no meio desse oceano de gente sem saber nadar. E a última fagulha de humanidade que existia em mim se afoga.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Solitude

Sensação estranha déjà vu. Um cheiro gostoso, doce e amável entrando pelas minhas narinas. Fito ao redor, mas não vejo o dono ou dona desse aroma tão agradável. Quero abraçar, e dizer que sinto sua falta, mesmo não sabendo quem é. Mesmo não sabendo o porquê. Ouço as risadas, as músicas e sinto sua respiração. Ando pelas ruas e vejo as pessoas se preparando para o carnaval. Melancolia. Que bizarro todos estarem animados e eu não. Viver pensando que já pude sentir o que agora não passa de um  déjà vu. Toda a memória escondida agora em um quarto de chão gelado em meu cérebro.
Queria tanto acreditar que existe algo além de nós mesmos. Queria ter asas. voar, voar e voar com destino a lugar algum. Aí dou o meu suspiro longo e suplicante, e lembro que não acredito em nada além de mim mesma. Não acredito nem nas cores, que dançam e fazem acrobacias diante de meus olhos. E tento afastar o pensamento de que tudo faz parte de um reflexo das minhas ilusões, fantasias e segredos reprimidos no olhar. Às vezes desejo, secretamente, acreditar em um deus ou em uma magia. Desejo acreditar em vida após a morte e paraíso. Desejo ter um pensamento sossegado de que algumas verdades são absolutas. Desejo ter comodismo. Talvez assim eu pudesse aquietar meu coração diante de fatos como a morte, por exemplo. Infelizmente, acredito na morte e acredito que as pessoas não têm alma. Elas simplesmente morrem, e às vezes só precisam de instantes para tal.
E um dia você sente o cheiro daquela pessoa especial, ouve o som de sua voz, olha nos seus olhos. No outro, parece não haver uma pista sequer de que aquilo tudo existiu. Você não sabe mais o que é real e o que faz parte do imaginário. As únicas provas são as roupas, perfumes e tudo o que é "coisa" deixada por ela. Deprimo a mim e aos meus sentimentos pensando nisso; e essa época do ano, assim como agosto, vai ser a pior dentro de mim. Eu perdi uma pessoa insubstituível. O buraco deixado não me matou, mas deixou uma ferida que insiste em abrir toda vez. Isso me faz pensar se tenho dado valor às pessoas a minha volta. Devo dizer "eu te amo" todos os dias? Devo, ainda, viver cada dia como se fosse o último?
Acho que vejo a vida passar diante dos meus olhos todos os dias, mas não me permito acreditar.