domingo, 26 de fevereiro de 2012

A menina que não sabia nadar

Amarrado a cada membro
Pelas minhas algemas de medo
Selado com mentiras pelas tantas lágrimas
Perdido por dentro, perseguindo o fim
Eu luto pela chance de ser enganado de novo


(Lies - Evanescence)
A água fria faz o favor de mandar mensagens, através do meu sistema nervoso, para informar a mim mesma que estou viva. Afundo minhas pernas, minha cintura, peito, braços e cabeça numa piscina suja de desilusões. O som se propaga com dificuldade dentro d'água, mas consigo ouvir os gritos sufocados e as vozes me dizendo o que eu devo fazer, vestir e falar. Ouço um choro e só depois percebo que é o meu. Ele está ali, solitário no fundo do oceano feito da minha alma. Meus braços e pernas querem se mover com brutalidade num mar que agora não mais me abraça; agora me mata lentamente enquanto vejo minhas esperanças se esvaindo nas profundezas da humanidade.Quero sair daqui. Quero correr e beijar o restante do mundo que vive bem, que não conta moedas todos os dias, que não engole as palavras estridentes que saem no momento de terror.
Afogo-me, na esperança de que tudo vai passar assim que meus pulmões se encherem de água. Mas só sinto dor, e ele só se enche de maldade, cheiro de esgoto, vingança e amargura. Rio numa risada gelada, e encho-me de todo o vazio humano, de toda a podridão de emoções superficiais sentidas por todos nós. Vivemos menos a cada dia que passa, e mesmo assim pisamos no calo uns dos outros, cuspimos os defeitos uns dos outros. Tratamos mal nossos semelhantes. Tratamos mal aqueles que amamos. Somos o espelho daquilo que mais odiamos.
Então, em meio ao espasmo e ao ganido de dor, abro meus olhos. Cuspo um sangue com um cheiro ácido, e finalmente constato que não sei nadar. Na verdade, nunca nem aprendi. Apenas tentei provar a mim mesma que poderia ser capaz de viver no meio desse oceano de gente sem saber nadar. E a última fagulha de humanidade que existia em mim se afoga.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Solitude

Sensação estranha déjà vu. Um cheiro gostoso, doce e amável entrando pelas minhas narinas. Fito ao redor, mas não vejo o dono ou dona desse aroma tão agradável. Quero abraçar, e dizer que sinto sua falta, mesmo não sabendo quem é. Mesmo não sabendo o porquê. Ouço as risadas, as músicas e sinto sua respiração. Ando pelas ruas e vejo as pessoas se preparando para o carnaval. Melancolia. Que bizarro todos estarem animados e eu não. Viver pensando que já pude sentir o que agora não passa de um  déjà vu. Toda a memória escondida agora em um quarto de chão gelado em meu cérebro.
Queria tanto acreditar que existe algo além de nós mesmos. Queria ter asas. voar, voar e voar com destino a lugar algum. Aí dou o meu suspiro longo e suplicante, e lembro que não acredito em nada além de mim mesma. Não acredito nem nas cores, que dançam e fazem acrobacias diante de meus olhos. E tento afastar o pensamento de que tudo faz parte de um reflexo das minhas ilusões, fantasias e segredos reprimidos no olhar. Às vezes desejo, secretamente, acreditar em um deus ou em uma magia. Desejo acreditar em vida após a morte e paraíso. Desejo ter um pensamento sossegado de que algumas verdades são absolutas. Desejo ter comodismo. Talvez assim eu pudesse aquietar meu coração diante de fatos como a morte, por exemplo. Infelizmente, acredito na morte e acredito que as pessoas não têm alma. Elas simplesmente morrem, e às vezes só precisam de instantes para tal.
E um dia você sente o cheiro daquela pessoa especial, ouve o som de sua voz, olha nos seus olhos. No outro, parece não haver uma pista sequer de que aquilo tudo existiu. Você não sabe mais o que é real e o que faz parte do imaginário. As únicas provas são as roupas, perfumes e tudo o que é "coisa" deixada por ela. Deprimo a mim e aos meus sentimentos pensando nisso; e essa época do ano, assim como agosto, vai ser a pior dentro de mim. Eu perdi uma pessoa insubstituível. O buraco deixado não me matou, mas deixou uma ferida que insiste em abrir toda vez. Isso me faz pensar se tenho dado valor às pessoas a minha volta. Devo dizer "eu te amo" todos os dias? Devo, ainda, viver cada dia como se fosse o último?
Acho que vejo a vida passar diante dos meus olhos todos os dias, mas não me permito acreditar.