quarta-feira, 4 de julho de 2012

Uma noite

Ela me busca justamente quando estou absorta em pensamentos dos mais estranhos. Leva-me para longe, um lugar da noite onde ninguém pode nos encontrar. Diz todas as palavras que quero ouvir, e todos os sonhos que eu gostaria de ter. Vem, inicialmente calorosa, abraçando-me e envolvendo-me em seus braços, beijando-me com seu hálito doce. Faz com que eu acredite não ser possível viver sem sua companhia. Então não penso em mais nada. Entrego-me ao seu encanto e esqueço de onde vim e para onde vou. De certa forma, isso me parece cômodo e necessário. Não luto. Fico ali, imóvel na cama ainda fria, esperando que o tudo aconteça.
No escuro, a nudez parece ser mais cruel. E sublime.Brutalmente, minha adorada amiga transforma meu corpo num pedaço do mundo, como a terra ou a água. Sou absorvida na mais intensa demonstração de torpor que posso sentir. Com o sol quase nascendo, e minha cabeça latejando incondicionalmente, ela me dá o último beijo e vai embora vento a fora. Não diz quando vai voltar, mas a certeza de que ela voltará permanece. O quarto está com um cheiro forte de perfume, sentimentos e suor. Aquele cheiro todo cheio de mim.
Ah... Conviver com a presença da dor é difícil. Não há como amá-la ou odiá-la. Só é possível suportá-la. E eu suporto todas as vezes em que ela me visita. Noite após noite, deixo que ela entre em meu quarto e me invada com sua promessa de que vai embora depois de possuir o que quer. A cada lágrima, aguardo silenciosamente o amanhecer.