sexta-feira, 17 de abril de 2015

Let's just forget everything said


Estou num período que as pessoas chamam às vezes de bad vibes. Tenho aula na faculdade cinco vezes por semana e, como de praxe, só apareci dois dias. Sei que é bem irresponsável faltar aula, e muitos já disseram que eu desperdicei três anos de estudos pra não dar valor ao meu curso: meu mais sincero foda-se, eu poderia cagar em cima dos livros de Direito. Não suporto olhar para a cara das pessoas que frequentam aquele prédio — temos belíssimas exceções, se é que me entendem —, não tenho saco nem pra tomar banho e já estou há cinco dias sem lavar meu cabelo. Já dá pra fritar batatas no meu couro cabeludo, alguém aqui tem noção do que significa isso?
Da mesma forma que os Alcoólicos Anônimos, tenho vivido um dia de cada vez. Talvez não com a mesma intensidade que os ébrios habituais, mas buscando sempre e desesperadamente um chiclete toda vez que o vício aperta. Os alcoólatras têm o álcool. Eu tenho alguma coisa que falta na mente, que ainda não sei o que é. Não é alguém pra chamar de mozão e ver séries no netflix. É alguma outra coisa que está me impedindo de seguir em frente, e que ainda não decifrei.
Começou bem pequena, como um nódulo no meio do cérebro. Nesse tempo, eu estava estudando pro vestibular e me imaginava no presente momento mais bonita e realizada espiritualmente. Obviamente eu me enganei. Estudava com aquele pontinho de luz brilhante pulsando na mente. Eu não sabia, mas o nódulo era intrínseco à minha existência, não dava pra simplesmente marcar uma cirurgia e tirar. Daí, passei no vestibular. Na realidade, passei em todas as provas que fiz naquele ano de 2013. Ela é a que ficou em sétimo lugar em Direito na UFRJ, diziam. E eu me orgulhava disso, porque nesse momento todo mundo se sente importante e verdadeiramente inteligente. Eu sou o futuro da nação. Eu vou ser alguém. Eu vou ter um emprego. Mas tinha uma paradinha que fazia comichão. Entrei na faculdade. Estava tudo muito bem, obrigada. Saí do ensino médio já uma mulher feita, com profissão regulamentada e nos conformes com a CLT. Uma família amorosa. Dinheiro da xerox. Um namoro bem meia-boca, mas quem não tem né? E nesse tempo eu tinha unhas grandes e me orgulhava delas, pintava de umas cores bem diferentes, então ficava coçando e coçando e coçando aquele pontinho de luz. Cresceu uma estrela, que na verdade era uma ferida. O que fazer agora? A gente vai ao Google e digita "estou com uma ferida no cérebro". E nesse momento, puta merda, você descobre que sua gripe é um câncer!!
Hoje eu poderia dizer que tenho uma úlcera no cérebro, se me permitem a péssima analogia. No dia-a-dia — até mesmo aqui — sou uma pessoa bem feliz e contente, que joga as piadinhas no ar e faz o papel de Zé Graça dos grupinhos e rodas de conversa. Mas em casa, no quarto escuro, só quero ligar o computador e abrir umas trinta abas com textos importantes que nunca vou terminar de ler. Fecho as janelas, desligo as luzes e finjo não existir. Arrasto os pés de um lado ao outro só pra fazer coisas muito importantes como comer e fazer necessidades básicas. Não lembro quando foi a última vez que acordei com vontade de me levantar da cama e cumprir meus afazeres. Por falar em cama, a minha está bagunçada há mais de um mês. Eu simplesmente vou jogando coisas nela — atualmente tem papéis com desenhos mal feitos, roupas que eu insisto em dizer que "estão limpas sim" e livros abertos em páginas aleatórias  — e quando vou dormir só faço afastar os objetos e deitar ao lado. Tem sido bem fácil fingir que estou bem, na verdade. No começo, as pessoas perguntam por que você emagreceu tão rápido, e dizem que você está até melhor porque está "menos inchada, né?". Depois as pessoas param de se importar e voltam a falar dos seus empregos, dos seus anseios, das suas briguinhas inúteis com namorados que provavelmente não vão dar em nada. E quando as pessoas voltam a falar de assuntos que só consigo acompanhar até a metade, volto a pensar na úlcera e na vontade que eu tenho dela se transformar num buraco negro e me engolir. Não se enganem: vocês convivem com doentes todos os dias, só não se dão conta. São pessoas que inclusive vão às mesmas festas que vocês, bebem e tiram fotos com os amigos, trabalham, dirigem, mas que por dentro estão um caco. Por dentro é como se não tivesse nada mais além de planos grandiosos e nenhuma vontade de concluí-los. Quer dizer,  na verdade queremos sim concluir todos os nossos planos, só não sabemos por onde começar. Daí ficamos perdidos na imensidão que é nossa depressão e perdemos o fio da meada.
Eu tô bem triste sim. Bem cansada, sentindo minhas forças serem drenadas todo dia. Lembrando que eu preciso muito, urgentemente, de um corrimão pra me segurar e aguentar esse giro. Porque novamente me vejo numa situação onde não me reconheço nesse espelho já que o reflexo mostra um retrato pior que o de Dorian Gray. Passei um tempão vivendo a vida de outras pessoas, fazendo coisas que não queria fazer só porque achava que seria saudável. Por isso vesti umas roupas estranhas e sorri numas fotos cujos flashes me cegaram. Não é saudável. Cada hora que passa eu tenho mais certeza que nunca vou me livrar dessa doença, só vou conseguir controlá-la, como venho fazendo desde os 14 anos. Então vou vivendo dias bons, dias ruins, dias mais ou menos. Tem dias que não vivo.

Enfim, só escrevi aqui porque minha próxima consulta ao psicólogo é no mês que vem, e não sei se consigo aguentar até lá.

11 comentários:

  1. Feh, estou abraçando você, mentalmente, agora. Eu também já passei e, algumas vezes, ainda passo por esses momentos. Graças a Deus, a intensidade deles diminuiu bastante, comparado a anos como 2013, por exemplo. Só posso dizer que você é uma pessoa incrível, que você vai encontrar o fio da meada e conseguir administrar sua vida da forma que quiser. Sei como é parecer normal, no dia a dia com amigos e familiares, mas, por dentro, estar em um abismo que parece que te puxa cada vez mais. O que você deve fazer, porque eu sei que você consegue, é não desistir. Eu e todos que te amam vão estar aqui sempre que você precisar para te apoiar. O importante é não cometer os erros do passado, ser você mesma e alcançar a sua felicidade sendo essa pessoa. Você é incrível, gata. Beijos

    ResponderExcluir
  2. Nossa Fê, eu te compreendo perfeitamente e, inclusive passo no psicólogo também, desde os meus 13-14 anos. É muito difícil ter que enfrentar uma doença tão severa quanto a depressão (eu mesma só fui aprender a lidar com ela depois de anos no psicólogo). Eu ainda também não consegui me desfazer dela completamente, pois tenho fibromialgia, e esta síndrome aumenta as chances de transtornos depressivos.

    A depressão é assim, ela oscila, há momentos que estamos muito bem e logo vem ela de novo e estraga tudo. É uma verdadeira guerra consigo mesma.

    Eu não sei se seria a melhor alternativa, mas lhe aconselho que não fique pensando muito na faculdade, pois isso pode piorar o seu estado emocional. Pense em você mesma neste momento.

    Lhe desejo toda a força do mundo, pois só nós mesmas sabemos como é estar nesta situação.

    Um Beijo.

    madessy.com

    ResponderExcluir
  3. Oi Fê, to te mandando vários abraços virtuais daqui!
    Eu não sei como é ser você nesse momento, mas acho que cada um tem suas coisas né? Boa parte da minha vida eu senti esse vazio, mas um vazio que era mais uma vontade urgente de fazer alguma coisa, de fazer parte do mundo. No meu caso, meu vazio foi preenchido pelo desapego. De gente que não me fazia bem, de situações que me deixavam desconfortável. Liguei o foda-se para milhares de coisas e foquei no que me fazia feliz. Sei que é um conselho clichê até demais, mas se cercar de gente que te faz bem e lugares que te acolham só deve ajudar, por isso admiro como você se abriu nesse texto. Enfim, não sei como é estar na sua pele, mas te desejo tudo de melhor. Boa sorte <3

    Beijo grande

    ResponderExcluir
  4. Sei como é. Tô passando por isso também.
    Não sei se funcionaria pra você, mas o que eu faço é, de vez em quando, tirar uns dias pra mim, pra fazer exatamente o que eu quiser, mesmo que seja só ficar deitada olhando pro teto; depois eu respiro fundo e tento seguir com a vida. Ficar perto de gente querida (só ficar perto, sem se obrigar a nada) normalmente me ajuda, também.
    É uma luta, eu sei, e lutar cansa. Mas a gente tem que continuar.

    ResponderExcluir
  5. Tu sabe que tem dias que tô bem de saco cheio com a vida e às vezes falo com você sobre isso. Já me perguntei que porras to fazendo, já quis parar, já quis morrer, já quis um monte de coisa mas a verdade é que: é o quem pra janta e a vida tá passando. Já tive fases exatamente desse jeito, mas desistir não tá sendo uma opção.
    A guria de cima deu uma boa ideia: quando estou assim tiro uns 3 dias pra fazer nada, curto minha própria companhia e de repende dá um gás de novo. É jeito. Um dia ainda vamos rir disso, vc vai ver!
    Beijos, gata!
    http://www.canseidesernerd.com/

    ResponderExcluir
  6. Eu não vou dizer pra você que sei o que você ta passando por que é sempre diferente pra cada um. Mas eu já tive momentos parecidos, principalmente a mais ou menos um ano atrás, quando eu estava aqui em POA sozinha, desempregada e com poucos amigos. Eu levantava da cama e voltava pra cama, passava dias vendo seriados, esperando alguma coisa acontecer e mudar minha sorte, levar minha tristeza embora.
    Mas ai uma coisa me levantou, uma ideia, um comichão. Foi nessa época que eu criei o meu canal e que tudo mudou, porque comecei a fazer algo que eu amo, e que é extremamente pra mim, mas que também presenteia muitas pessoas. Não to dizendo que você deve criar um canal, é como a experiência, cada um tem o seu gatilho, mas talvez seja algo assim. Talvez você precise achar algo que faça você verdadeiramente feliz, e que não precise da aprovação ou da participação dos outros pra dar certo. Algo que te faça levantar da cama, tomar um bom banho e ficar ligada na tomada correndo atrás pra produzir e viabilizar.

    Não sei o que pode ser isso pra você, mas eu espero que você descubra em breve :)
    E qualquer coisa que tu precisar, mesmo estando no extremo contrário ao seu, to aqui pra te ajudar, mesmo que seja jogando conversa fora no bate papo do face.

    Beeijo
    http://resenhandosonhos.com

    ResponderExcluir
  7. Faz uns dias que eu falei que ia comentar aqui e mesmo com a demora oh: comentei.
    QUE VONTADE DE TE ABRAÇAR E CANTAR MÚSICA DE NINAR PRA VOCÊ!
    Mas sério, vou te fazer uma pergunta até meio invasiva e eu quero que você reflita nela: você está feliz com a faculdade, ou está ali porque passou e agora não tem outro jeito? Porque o que eu senti muito vindo de você, foi um "ódio" maior por ela. Bom, se quiser conversar pode me chamar nas redes sociais da vida, ta?
    Quanto as outras coisas, parece inacreditavel mas até a Xuxa sente esse vazio. Acho que o grande problema é que todos nós ficamos sempre atrás de algo mais, e as vezes esse algo mais nem é necessário. É aquela coisa meio good vibes de ser feliz com quase nada, mas na pratica...
    To aqui, sempre <3

    Novembro Inconstante

    ResponderExcluir
  8. Esse post foi tão real e eu pude até me identificar com algumas partes. Queria poder dizer alguma coisa que ajudasse em algo, mas eu sei que só falar não ajuda muito em nada. Há uns tempos eu achava que tinha realmente superado a depressão, que tinha escapado dessa e que nunca mais seria pega... Mas não é bem assim, e eu vejo isso todo dia agora. Espero, de verdade, que você consiga melhorar, mesmo que gradualmente.

    Beijos <3
    Nighght

    ResponderExcluir
  9. Fernanda, precisamos conversar sobre você sair escrevendo sobre a minha vida sem o meu consentimento u.u HAHAH

    De verdade. Também tenho um buraco, não sei se no cérebro, mas que infelizmente não me faz emagrecer - muito pelo contrário. Talvez eu precise sim de um mozão pra assistir séries no netflix (eu tinha, até semana passada, e isso faz com que meus dias tenham sido cada vez piores).

    Diferente de você, eu não quero voltar ao psicólogo. Cheguei a uma conclusão broca e ignorante de que não há remédio pra os meus problemas. Não é como um remédio pra dor de cabeça que a gente toma e tudo passou. Meu problema tá entranhado na alma e essa agonia que eu sinto NINGUEM pode ajudar (talvez só quem provocou, mas não tá interessado em me salvar. Até porque não é da obrigação de ninguém a minha salvação).

    meu quarto anda um caos, assim como a minha vida. Infelizmente preciso me locomover todos os dias ao trabalho e não consigo mais ser a engraçadinha da turma. Eu acabei me tornando uma chata que nada mais quer do que sumir e não ver ninguém.

    Desabafos à parte... desculpa, falei demais.

    beijo
    beinghellz.blogspot.com

    ResponderExcluir
  10. Sim... me passa teu e-mail? Queria te convidar pra fazer parte do BEING YOU no meu blog e, quem sabe, começar uma conversa marota :)

    ResponderExcluir
  11. Tudo que você escreveu é o que eu tenho vivido há alguns anos. Eu só comecei a me dar conta quando percebi quando entrei num bloqueio criativo - minha criatividade praticamente desaparecera, não conseguia mais escrever, nem desenhar, e foi espalhando pela minha vida.
    Antes disso, eu já achava que tinha depressão, mas o meu sofrimento era parte da minha fonte de inspiração. Hoje, sofrimento ou felicidade já não fazem qualquer diferença pra mim, continuo estéril.
    Como nos livramos dessa coisa? Isso é depressão? Como saber?
    Já estou na terapia há quase 2 anos. E sei que foi bom. Foi umas das coisas mais certas que fiz na vida. Mas talvez esteja na hora de procurar outra psicóloga. Porque às vezes tenho a impressão de que minha psi não me leva a sério. Eu sempre achei que tivesse alguma depressão, mas ela nunca me deu certeza. Quando falei que achava que tinha sociofobia, ele falou "você não precisa dar nome para o que você tem". Eu não concordo. Se eu tenho alguma coisa, eu quero sim saber o que é e saber o que é possível fazer. Ela sempre dá a entender que eu não tenho nada de mais. Não é que eu queira ter alguma coisa, mas é meio frustrante, porque sempre achei que tivesse algo de errado comigo.
    Olha, moça, saiba que você não está sozinha. Assim, como você e eu, outras pessoas sabem como é isso, e cada uma tem seu próprio jeito de lidar com a situação. Espero que você consiga achar uma solução (que não vai ser do dia pra noite). E se achar, me conte. Estou com você. Se quiser, podemos conversar. #StayStrongFehzona
    Beijos.
    http://luxferia.blogspot.com/

    ResponderExcluir