domingo, 14 de junho de 2015

Tutorial: como ir a um bar de metal com sua mãe

Isso aconteceu no carnaval de 2014. Tem um bar aqui em Manaus que é o meu queridinho, o Porão do Alemão. É literalmente um porão! Você desce as escadas e encontra um bar subterrâneo com palco, telão e outras coisas maneiras. Tem uma bebida chamada Mariana. Tem outra bebida chamada Inferninho, cujo ponto alto é o barman usando um maçarico pra tocar fogo no copo. A música gira em torno de rock e metal, majoritariamente. E...
A primeira vez que eu pisei nesse bar foi com a minha mãe.
O que eu vou narrar não foi a primeira vez de fato. Na minha primeira vez, eu ainda era menor de idade, estava saindo de um casamento com minha mãe e meu tio, que frequentam o bar há mais de 10 anos! E lá estava eu com vestido de festa e saltinho delicado com a minha família ouvindo clássicos do rock. Foi lindo.
Mas não vou narrar esse dia. Vou narrar o dia em que eu fui com minha mãe ao Porão no carnaval. Ela viu um flyer circulando pela internet de que o Porão abriria às 14h da tarde e não teria hora pra fechar.
"Vamos fazer um carnaval para os roqueiros", eles disseram.
"Mais de 1000 caipirinhas liberadas", eles disseram.
"Vamos nos arrumar e ir de ônibus", ela disse.
Vesti uma blusa de caveirinhas, uma calça jeans e meu coturno (que é quase parte do meu pé de tanto que usei).
"Fernanda, você vai tomar conta dos meus cartões e do dinheiro, porque eu vou tomar caipirinha e outras coisas".

Chegamos lá e isso aconteceu: esquecemos nossas identidades em casa.
"Vocês não vão entrar, estão sem a identidade."
"Mas senhora, eu tenho 40 anos e estou com a minha filha de 19 anos."
"Como eu vou saber que vocês são maiores de idade?"
"SENHORA, EU ATÉ TENHO CABELO BRANCO, OLHA AQUI!", disse minha mãe praticamente arrancando seus fios espessos da cabeça.
"Não interessa, não vão entrar."
O mais absurdo é que do nosso lado tinham vários homens entrando sem precisar mostrar a identidade.

Decidiram que deixariam a gente entrar, afinal minha mãe é uma frequentadora praticamente assídua do Porão. Digamos que ela vai a esse bar desde quando ele ainda iam só as pessoas que gostavam de metal mesmo.
"Esse lugar já foi melhor frequentado", ela disse.
Nesse dia, já tinha tanta gente que não dava nem pra se mexer direito. Descíamos as escadas, a caminho da perdição, agarradas uma a outra para que não caíssemos na escuridão do bar.
E então começou.
"Fernanda, eu vou pegar caipirinha antes que acabe. Você quer também?"
"Quero".
Mas naquele dia eu não aguentei tomar minha caipirinha, acho que pela preocupação de estar acompanhando uma mãe visivelmente alegre com seu segundo copo de caipirinha.
"EU SOU DO TEMPO EM QUE A CAIPIRINHA VINHA NO COPO DE VIDRO, NÃO NESSES COPOS FEIOS DE PLÁSTICO!", disse indignada.
Mais tarde eu entendi o porquê das caipirinhas virem em copos de plástico.

A cada duas músicas, tocava uma do Charlie Brown Jr., porque nesse dia o público estava muito diversificado, então eles não poderiam tocar música "muito pesada".
"ESSA MÚSICA TÁ MUITO CHATA, VOU BEBER MAIS", disse minha mãe.
A essa altura eu estava hiperventilando, estressada com aquele monte de gente que saiu de casa pra ouvir a porra do Charlie Brown Jr. Eu queria ouvir Metallica, Pantera e aquilo que tocava sempre no Porão.
"MÃE, TÁ TOCANDO MAN IN THE BOX!!!!! FINALMENTE UMA MÚSICA BOA!", gritei de alegria, mas minha mãe já estava rindo à toa, e eu fiquei no vácuo.

JEEEEEESUS CHRIIIIIST (seria interessante vocês darem play nisso e sentirem a vibe)

"FERNANDA, A GENTE TEM QUE COMEMORAR, PORQUE VOCÊ PASSOU EM DIREITO E EU TAMBÉM! VOCÊ NA ESTADUAL E EU NA FEDERAL, A GENTE TEM QUE BEBER MUITO!" disse, mas a minha primeira caipirinha ainda estava na minha mão, com o gelo derretendo e tudo. Mamis suprema decidiu que era hora de tomar a minha caipirinha antes que virasse só água.
E aí ela puxou assunto com uma galera jovem que estava perto da gente comendo umas batatas. Daí ela gritou:
"MINHA FILHA PASSOU PRA DIREITO!"
"UHUUUUL, PARABÉNS!"
E ela gritou: "E EU TAMBÉM PASSEI!"
E eles ficaram surpresos, pois não é todo dia que mãe e filha passam para o mesmo curso - muito concorrido - no mesmo ano.
Além disso, algumas pessoas ficavam surpresas quando ela dizia que era minha mãe, porque "NOSSA, VOCÊS PARECEM IRMÃS!". Não sei se eu pareço velha demais ou minha mãe nova demais, acho que um pouco dos dois.
Depois, mamis suprema tomou um Inferno e fez amizade com uma mulher detentora de um balde de cervejas long neck. Então tomou umas cervejas também, porque a mulher disse que não conseguiria beber tudo aquilo.
"Fernanda, você quer cerveja?"

Você perguntou se eu quero cerveja, é isso mesmo produção?
Eu não bebi cerveja, pois estava muito pilhada e preocupada com minha mãe animada dançando ao som de Charlie Brown Jr. Preferi ficar na água mesmo.
"A MÚSICA É RUIM MAS EU TÔ FELIZ. FILHA, EU JÁ FALEI QUE TE AMO? EU TE AMO MUITO, TÁ? VOCÊ ME DÁ MUITO ORGULHO TODOS OS DIAS"
Definitivamente ela estava bêbada. Foi tentar mandar mensagem pelo celular, mas: o celular estava zoado e a capa caiu no chão. Tive que mergulhar no mar de pessoas pra achar.
Decidiu que seria uma boa comermos batata frita. A batata frita do Porão é magnífica, cheia de maionese com orégano e outras coisas maravilhosas.
"VOU COMPRAR BATATA FRITA PRA MINHA BEBÊ", ela disse. A bebê sou eu.
Daí começou a tocar reggae e eu falei: "CHEGA, VAMOS PRA CASA, MÃE". Olhem bem pra minha cara de que vai ouvir reggae e agir passivamente.
Nesse meio tempo, pessoas que estavam ao meu lado derrubaram uma garrafa de long neck no chão, tinha vidro pra todo lado e um cara que estava de chinelos cortou o pé. Agradeci por estar de coturno e entendi o porquê das caipirinhas não virem mais em copo de vidro.
Ainda era umas 22h, e o ônibus demorou muito a passar. Minha mãe vinha caminhando meio bamba, com o braço em volta do meu ombro e falando:
"Deve estar sendo difícil pra você cuidar de mim, VOCÊ ESTÁ COM OS CARTÕES DE CRÉDITO, NÉ?"
"Estou, mãe. Estão aqui."
"Puxa, que filha responsável essa minha!"
O fato é que o ônibus demorou tanto que minha mãe nem estava mais bêbada.

Depois de ter saído algumas vezes pra outros circuitos da noite amazonense, chego à conclusão de que: não é a mesma coisa sair sem minha mãe. Primeiro porque nem todo mundo que conheço topa ir ao Porão do Alemão, já que lá só toca música chata (leia-se: não toca sertanejo universitário). Ninguém topa ouvir Rammstein, mas minha mãe topa. Meus amigos não sabem todas as músicas do System of a Down de trás pra frente, mas minha mãe sabe. E ninguém compra batata frita pra mim de tão boa vontade, só minha mãe faz isso.
Pra quem possa achar que ir pra balada com a mãe é a pior coisa que pode acontecer na vida de alguém e isso é o cúmulo do ostracismo social, só digo a vocês: sinto muito se a mãe de vocês não é legal e descolada. Mas a minha é. E, embora tenha sido caótico, foi o melhor carnaval da minha vida.

Inseparáveis há mais de 20 anos.

18 comentários:

  1. HASHAHA chorei rindo, cara. Mas tu disse que se eu fosse mãe eu seria essa mãe, mas não. Eu não estaria num bar de metal e sim dançando Lady Gaga PODRE DE BÊBADA, fazendo coreografia em câmera lenta e depois subindo de quatro na mesa do DJ pra pedir "Toca Valesca aí, tio!" xD Mas tua mãe é a melhor mesmo HAHUASHUAHSU
    Vou comprar batata pro meu bebê <3

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  2. "Olhem bem pra minha cara de que vai ouvir reggae e agir passivamente." Hahaha, amo esses seus textos, sempre me matando de rir. Sua mãe parece ser muito descolada e CARAMBA, ELA GOSTA DE SOAD! Preciso ser amiga de vocês duas, hehe.

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  3. AIIII QUE AMOR
    Minha mãe não me deixa nem ir no shopping direito, quanto mais beber comigo.
    Meu pai anda me chamando pra ir na balada com ele, sua história até me fez repensar a possibilidade

    Novembro Inconstante

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  4. Cara, que coisa fofa, isso! E vocês são muito parecidas, impressionante! Acho que aqui seria mais ou menos assim se minha mãe bebesse ou ouvisse metal; como não é o caso, ela me leva(va) pra vernissages.

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  5. Hahaha minha mãe não bebe, e nem tenho uma relação muito bacana com ela (alguns dos motivos tu descobre no meu texto do dia 16), mas enfim, eu ri horrores lendo a sua história, adoro seu jeito espontâneo.

    Beijo

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  6. "Mais tarde eu entendi o porquê das caipirinhas virem em copos de plástico." MUAAHAHAHAHAHHAHAAHAHHAHAAHAHHAHAAH.

    Besha, sua mãe é muito GATA!

    A minha também é legal, mas bem mais do tipo "tia bêbada palhaça" do que companheira de boteco de rock. Na verdade já rashei muito foi a cara de VERGONHA mesmo com ela - em determinados eventos sociais, mas alcoolismo é assim mesmo e nem tenho por que me incomodar com essa merda porque também tenho minha cota ¬¬.

    Infelizmente aqui em Brasília tem poucos bares nesse estilo. Apesar de eu não gostar de metal, acho que seria interessante pra quem aprecia. Se um belo dia eu for parar em Manaus, certamente vou correr nesse Alemão pra tomar uma caipirinha detonadora de juízo dessas aê ;*

    Beijão, lindona =*

    Faroeste Manolo
    Página Facebook

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  7. TIPO ASSIM ADOREI <3 <3
    Eu não tenho uma relação boa com a minha mãe, e de verdade fico muito feliz por ver que vocês são tão unidas assim. E não reclame dela mesmo, porque vey uma mãe dessas que compra batata pra você e bebe contigo é de se querer pra toda vida kkkkkkk

    Beijos!

    madessy.com

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  8. PS: Vocês são MUITO identicas *o* lindas!!

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  9. Que sucesso *w* Amei sua mãe topa tudo - bom, o máximo que cheguei foi ir no Anime Friends com meus pais, que aproveitaram mais que eu, e depois fui com minha avó, que ficava pedindo pra tirar foto com os cosplayers. -q
    Acho muito digno levar os pais pros rolês se eles são pessoas de bom-senso (pq de nada adianta sua mãe curtir metal e ficar falando pras pessoas das suas peripécias infantis porque acha engraçado te constranger na frente das pessoas -qqq). Já fiz de tudo com minha mãe, inclusive acompanhá-la quando ela queria ver os filmes da saga crepúsculo (que numa certa altura ficaram tão terríveis que eu já não conseguia mais, mas ela gostava, então ok). Hahaha!
    Adodo mães <3
    Beijo Fernanda :*

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  10. Gente, que amor.
    Minha mãe também é descolada. Acho que não tanto quanto a sua, digo, eu não sei se levaria a minha mãe para as baladinhas da vida, temos nossas diferenças e tal, mas ela é bem legal. Ela até entrou com Whiskey escondido no Rock in Rio kkkk
    E ela é super de boa, o que é ótimo.
    Amei seu texto, sério, bota pra sua mãe ler porque foi uma declaração de amor linda.
    Cara, quando a lugares mal frequentados. Relaxa. No rio também é assim. Pode me chamar de segregadora, do que for, mas a verdade é que sempre que abre um lugar bacana com uma proposta legal e um pessoal 10, não demora muito pro lugar ficar insuportavelmente lotado e cheio de gente nada a ver.
    triste.

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  11. Você e sua mãe são duas lindas, que coisa mais amor! HAHA, nunca saí com a minha mãe nesse estilo, pq ela não curte esse ~tipo~ de música, mas fazemos outros tipos de passeios juntas. É sempre tão bom, adoro ter esse tempo de qualidade com ela, me aquece o coração. E, sério, como alguém consegue ouvir reggae passivamente e achar que está tudo bem? Só ficando ULTRA bêbada mesmo (coisa que eu não fico, então não dá, HAHA). E, cara, Rammstein e System of a Down? Meu irmão me fez gostar das duas bandas praticamente por osmose, haha (ou seja, colocava pra tocar tão alto que nem fone, nem porta, nem travesseiros me impedia de ouvir). Um beijo!

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  12. hahahahaha, deve ter sido muito divertido.
    Eu nunca sai com minha mãe, mas minha irmã que é 10 anos mais velha e que quase não sai de casa, esse ano desencantou e quer ir a todos os lugares. Dependendo do que é o evento eu fico tensa, porque as vezes ela ainda apresenta alguns pensamentos ou comportamentos de quando ela saia e a coisa fica esquisita hahahaha
    Mas em geral, me divirto bastante e do altas risadas com a "ingenuidade" dela.

    Beeijo
    http://resenhandosonhos.com

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  13. Perae que estou chamando minha mãe pra ler esse post .. ela não bebe, logo nossos passeios se resume a shopping rs

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  14. Fernanda, já amei a sua mãe! Tão bom ter uma amiga-mamy para sair, né? E com gostos parecidos! Eu ia rir muito e, com certeza, consideraria um dos melhores carnavais. Minha mãe não é muito de night, mas é tão "louca" quanto a sua. E eu tenho o maior orgulho. ;-)
    Amei as fotos e o post. Beijo para sua mamys suprema! ^^

    Beijocas,
    Carol
    www.pequenajornalista,com.br

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  15. Amei e quase infartei aqui. Não é você que parece velha, a sua mãe que parece mais nova. Nunca na minha vida minha mãe faria um programa desse comigo auehueheuaehueheuaehauea. Beijo <3

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  16. Muito amor agregado ao seu post, mas tenho que dizer que eu ficaria muito enputecida (assim como você ficou) se fosse pro Porão do Alemão - que fiquei doida pra conhecer, inclusive - e tivesse que ouvir Charlie Brown Jr. Sério. Sério MESMO!
    Sua mãe parece ser uma piada. É tão bom ter mãe-amiga. É sempre uma história hilária pra contar sair com a mãe!!

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  17. Posso dizer que eu morri de rir com a postagem? HAHAHAHAH MANO, meu sonho na vida era ter uma mãe que curtisse as mesmas coisas que eu e que saísse pras balads comigo HAHAHA
    mas... não fui agraciada com a mesma sorte que você e minha mãe é fã de sertanejo u.u

    BEEEEEEEIJO FERNANDA LINDA
    beinghellz.blogspot.com

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  18. Invejei sua mãe profundamente aqui, nem minha mãe compra batata frita para mim de boa vontade :(

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